São Paulo, 24 de setembro de 2018
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Comer pouco e fortalecer pernas é essencial para envelhecer bem, diz Abilio Diniz

15/5/2018

Abílio Diniz

O empresário Abilio Diniz lança na terça-feira (15) uma plataforma digital gratuita voltada à longevidade com bem-estar. Aos 81, ele diz que se preocupa com o tema desde os 29. A ideia é agrupar no espaço pesquisas e projetos amparados em evidência científica, além das experiências pessoais de indivíduos e de organizações que estão fazendo a diferença nas questões do envelhecimento.

 

O Brasil experimenta um acelerado processo de envelhecimento populacional. Em 2030, o país terá mais idosos do que crianças pela primeira vez na história e isso já representa um dos principais desafios para o sistema de saúde. "Envelhecer é uma certeza, envelhecer com qualidade é uma escolha. E, para isso, você tem que começar a se preparar antes", diz Diniz, 81, que tem 6 filhos, 17 netos e 2 bisnetos. 

 

A plataforma (plenae.com) se ancora em seis pilares: corpo (sono, alimentação, exercícios), mente (estresse, aprendizagem), relações (família, comunidade), espírito (fé e meditação), contexto (renda, educação) e propósito (sentido da vida). O empresário, que tem fama de brigão no campo empresarial, acaba de deixar o comando do conselho da BRF, dona da Sadia e da Perdigão, após briga acirrada com os sócios da companhia.

 

Ele afirma que o episódio provou que é capaz de dar "aula de acordo, de fazer as pazes". "Meu propósito é ser feliz e compartilhar conhecimento", diz ele, que espera viver mais "20 ou 30 anos". 

 

Como surgiu a ideia de criar essa plataforma digital voltada à longevidade? 

 

Presto atenção em saúde e longevidade com qualidade há muito tempo. Comecei a me preparar para os 80 anos aos 29, quando comecei a fazer análise e trabalhar a cabeça. Era um cara realizado, dono de uma pequena rede de supermercados, pai de três filhos, mas vivia angustiado, tenso. Comecei a sentir dores no peito e o cardiologista disse: 'Você não tem nada ainda, mas vai ter'. Comecei a cuidar do corpo, da alimentação, do sono, da espiritualidade. Envelhecer é uma certeza, envelhecer com qualidade é uma escolha. Mas as pessoas mal conseguem se cuidar pensando no presente, como fazer isso pensando a longo prazo? Não é fazer disso um problema, se estressando, mas saber que está construindo um ativo importante no envelhecimento. Eu tenho seis pilares nos quais eu me apoio: atividade física, alimentação, autoconhecimento, controle do estresse, espiritualidade e amor.

 

Se tivesse que eleger um pilar, qual seria? 

 

Alimentação. Uma vez perguntei à Susan Andrews [antropóloga e psicóloga de 72 anos]: 'Como você se mantém bonita e sempre em forma?' Ela, com uma voz fininha e baixa, disse: 'Sabe, Abílio, eu como pouco'. Devemos comer, no máximo, aquilo que será consumido [queimado]. Depois de uma certa idade, o melhor é comer um pouquinho menos ainda.

 

Controlar a alimentação é vital. Atividade física é outra. Não precisa ser atleta como eu fui, não precisa competir. Por muito tempo, elegi o esporte como competição. Eu odeio a derrota. Por isso, competia, competia. Mas, para uma longevidade com qualidade, é fundamental que se faça exercício de fortalecimento, principalmente dos músculos das pernas. Existe uma coisa chamada sarcopenia, que é a morte das células que compõem os músculos. Isso é tão certo quanto a morte e os impostos.


 

Qual a sua rotina de esportes?
Tenho um programa de cinco dias, de segunda a sexta. Cada dia tenho uma atividade. Jogo squash duas vezes por semana, luto boxe uma vez por semana. Não basta ter ossos e músculos fortes. É preciso ter um sistema neural capaz de acioná-lo com rapidez e agilidade. Corro na esteira para manter o sistema cardiovascular ativo, corro um pouco de costas também, faço bastante bicicleta e nado se estou um pouco machucado. E faço muito fortalecimento muscular, três dias de membros inferiores e dois dias, de membros superiores. Sábado e domingo eu faço um aeróbico qualquer, às vezes longas caminhadas.


Seja pelo custo, seja pela falta de tempo, é muito difícil alguém conseguir manter uma rotina como a sua... Não precisa ser como o Abilio. Um pouco de aeróbico, uma caminhada, um pouco de esforço num plano inclinado, são mais do que suficientes. Mas priorize o fortalecimento das pernas. É imprescindível ter pernas fortes na velhice. Outro grande problema no envelhecimento é a perda de equilíbrio.
Como manejá-la?
O primeiro passo é se conscientizar de que você vai perdê-lo mesmo e ficar esperto. Existem maneiras de lutar contra isso. Perder o equilíbrio é complicado. Meu pai morreu aos 94 e minha mãe aos 99 anos. Os dois iam bem até o dia em que caíram e precisaram fazer complicadas operações, trocar cabeça do fêmur. Já não eram os mesmos quando voltaram para casa. As pessoas precisam olhar para isso, precisam se cuidar para não cair. No campo empresarial, o sr. tem fama de brigão... Eu tenho, mas já fui muito mais brigão. Dei aula de acordo, de fazer as pazes em tudo o que eu passei na BRF agora. Eu tenho uma agressividade que é minha, mas meu principal propósito é ser feliz.

Desde pequeno, sendo filho de padeiro, baixinho e gordinho, busquei como meta ser feliz. Sempre fui um cara determinado, ambicioso para buscar meus objetivos. As pessoas conhecem mais as minhas reinvenções no campo empresarial, mas a maior foi ter me casado novamente aos 67, e hoje ter uma filha de 11 e um filho de oito anos.
A plataforma digital vem na esteira disso?
Sim, eu tomo cuidado com as coisas que faço para mim, mas há um bom tempo que a gente vem estudando atividade física, alimentação, administração do estresse, autoconhecimento. Agrupamos tudo no Plenae para que o maior número de pessoas possa se beneficiar de forma didática e gratuita. Vamos abrir a plataforma para o Brasil e, depois, para fora também. O maior interessado em longevidade com qualidade sou eu mesmo. Tenho filhos pequenos, mulher, quero viver mais 20, 30 anos. A minha espiritualidade é muito forte [ele é católico praticante], Deus tem sido um amigão comigo, tem me dado força, luz e clareza para superar as dificuldades. De que maneira que posso retribuir? Fazendo o compartilhamento de todas as coisas que tenho aprendido na vida.

Há muito modismo e pouca evidência científica em temas ligados à longevidade. A plataforma tem a preocupação de filtrar esses dados?
A gente só vai trabalhar com base em evidência científica. Não recomendo dieta nenhuma. O que engorda ou o que faz mal à saúde é a regra, não a exceção. Tem muita gente que fala: 'ah!, para ele é fácil, só come salada, não gosta de nada, não bebe'. Não é verdade. Eu gosto de tudo de que as pessoas gostam, só não gosto de cebola e alho. Gosto de lasanha, pizza, churrasco. Mas eu não posso comer um churrasco no almoço e uma lasanha no jantar todos os dias.
Como fazer chegar essas informações sobre longevidade à base da pirâmide social onde as pessoas, às vezes, não têm o que comer?
Hoje, com as redes sociais, com um celular, todo mundo tem acesso a informações. Vamos decodificar esse conteúdo e mostrar em uma linguagem bem rasteirinha o que as pessoas têm que fazer com a alimentação, atividade física. É verdade que, com as pessoas mais humildes, é mais complicado. Elas não têm condições de ficar comendo cinco vezes por dia. Quando vão comer, estão morrendo de fome e comem o que tem. E comem muito porque acham que têm que estocar. Precisamos falar: comam alguma coisa nos intervalos, uma banana, por exemplo, que é fácil e barata. Mesmo as pessoas com boas condições socioeconômicas têm dificuldade em mudar hábitos.

O nível de sedentarismo e estresse entre os executivos, por exemplo, é altíssimo. Qual o caminho?
É muito difícil mesmo. As pessoas têm que começar a ver os benefícios. Eu não me estresso nunca [pensa um pouco e corrige: 'Eu não me estresso quase nunca']. Você precisa combinar com você mesmo com o que vai se estressar. Eu só me estresso com o que é muito importante na minha vida, com minha saúde e minha família. O resto é da vida. BRF, Carrefour, é da vida, é o que faço. Não vou me estressar com isso. É preciso ser minimamente organizado, ter disciplina. Saber o que vai fazer hoje ou semana que vem. Eu sei o que vou fazer no ano que vem. Não precisa ser idiota de se estressar por não conseguir ir daqui até ali em 15 minutos. Levei um tempão para entender isso. A questão, no fundo, é você se gostar. É olhar no espelho e dizer: eu gosto desse cara, vou fazer o melhor por ele.


Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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