São Paulo, 18 de fevereiro de 2018
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Aos 103 anos, sobrevivente relembra gripe espanhola

14/2/2018

Gripe espanhola

Aos 103 anos, José Ameal Peña diz que jamais ficou doente, com uma exceção: a infecção em 1918 pela gripe espanhola, a epidemia mais letal desde a peste bubônica, no século 14.

 

Ele é um dos poucos sobreviventes ainda vivos daquela doença, que completou seu centenário neste ano. A gripe espanhola foi a tragédia de mais impacto do século 20, matando entre 50 milhões e 100 milhões, enquanto as duas guerras mundiais somadas (1914-1918 e 1939-1945) deixaram 70 milhões de vítimas. Ameal vive no povoado de Luarca, na região de Astúrias, no norte espanhol. Viviam ali 2.000 pessoas quando, em 1918, a gripe chegou. Um quarto morreu.

 

"Ouvíamos os sinos a toda hora, anunciando as mortes", disse à Folha, pescando as memórias que lhe restam da epidemia, quando tinha apenas quatro anos. "Uma das coisas de que me lembro é ver dois cortejos fúnebres simultâneos e, para me proteger, meu avô fechar as cortinas". As mulheres da vila se vestiam todas de negro, em luto.

 

Com a frequência quase ininterrupta de mortos, no entanto, a vila deixou de dobrar os sinos. Não queriam aterrorizar os moradores, e os velórios passaram a ser feitos em silêncio. Tantos cadáveres foram levados ao cemitério que, temendo algum tipo de contaminação, a igreja foi abandonada até hoje.

 

Ameal passou longos dias acamado, enquanto as esperanças da família minguavam. Àqueles tempos, em um vilarejo a mais de 500 quilômetros de distância da capital, Madri, eram escassas as informações sobre a epidemia, suas causas e tratamento.

 

O médico de Luarca era o doutor Cefeiro Rodriguez, de quem Ameal se lembra com carinho --os moradores dizem que ele tratou da gripe espanhola com infusões de folhas de eucalipto.

 

"Eu estava tão fraquinho que engatinhava no chão, em vez de andar", conta. Mas encorpou, cresceu e deixou o vilarejo aos 18 anos rumo ao centro do país. Lutou na guerra civil, foi capturado pelas tropas do ditador Francisco Franco, trabalhou como motorista de toureiro, comprou um caminhão e voltou à vila em 1952, onde abriu um boteco ainda em atividade. Ele se aposentou há 38 anos.


ANTICORPOS


A gripe de 1918 é espanhola apenas no nome. O primeiro caso foi registrado nos Estados Unidos e ainda hoje se debate qual foi, afinal, o paciente zero. Há teorias que apontam a origem na China ou no interior francês. Mas a censura em diversos dos países afetados e a cobertura dos jornais espanhóis, que tinham relativa liberdade para reportar a epidemia, fizeram com que a doença fosse chamada de "espanhola".

 

"É fascinante que, se você perguntar a alguém qual foi a maior catástrofe do século 20, provavelmente essa pessoa dirá que foi a Segunda Guerra ou os expurgos na União Soviética. Raramente mencionam a gripe espanhola", afirma à Folha Laura Spinney, autora do livro "Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World".

 

Uma das explicações para o silêncio é que, à época, a carência de informações fazia com que as pessoas não soubessem exatamente o que causava as mortes --se falava em praga, em cólera. "Muitos também não sabiam qual era a escala da doença. Viam apenas o que estava acontecendo ao seu redor, na vila", diz Spinney.

 

A gripe infectou 500 milhões de pessoas no mundo, das quais até 100 milhões morreram --5% da população à época. Foram 8 milhões de casos só na Espanha, deixando 300 mil mortos. O rei Alfonso 13 também adoeceu, mas sobreviveu, como Ameal.

 

Sua família fala da gripe espanhola como se tivesse imunizado Ameal contra qualquer outra doença, e sua sobrevivência é vista no vilarejo como mais um atestado de sua rara vitalidade. A única queixa é a audição, já não mais como em sua juventude.

 

Casos como o dele interessam aos cientistas. Uma pesquisa publicada em 2008 na revista científica "Nature" identificou anticorpos contra a gripe espanhola em 32 sobreviventes que, como Ameal, tinham em torno de três ou quatro anos em 1918. A persistência desses anticorpos foi vista como uma oportunidade de desenvolver tratamentos a outras epidemias, estimulando o sistema imunológico dos pacientes.

 

"Mas ninguém nunca me procurou para tirar meu sangue", diz Ameal. Ele próprio não comentava a doença até os últimos anos, talvez por conta do silêncio imposto pela família. "Ninguém falava sobre essa gripe espanhola depois que eu cresci", afirma. "É quase como se nunca tivesse acontecido..."



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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