São Paulo, 2 de dezembro de 2020
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Moléculas derivadas do ômega-3 podem regenerar tecido periodontal

13/11/2020

Fapesp

Maresina e resolvina, duas moléculas produzidas pelo corpo a partir do ácido graxo ômega 3, podem ajudar a recuperar tecidos danificados pela doença periodontal. Em estudo recente, elas demonstraram a capacidade de estimular as células-tronco do ligamento periodontal – uma das estruturas que são perdidas em casos mais graves do problema – mesmo na presença de inflamação.

 

O trabalho é parte do doutorado de Emmanuel Albuquerque de Souza, pesquisador da Disciplina de Periodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO-USP), e foi realizado no Forsyth Institute, afiliado à Harvard School of Dental Medicine, nos Estados Unidos, por meio de bolsa concedida pela FAPESP.

 

A inflamação local é um dos aspectos mais desafiadores do tratamento da doença periodontal. “Ela destrói os tecidos que sustentam os dentes na boca, e o tratamento com células-tronco, embora consiga estimular a regeneração dessas estruturas em estudos in vitro e em animais, acaba não funcionando tão bem nos humanos por conta da inflamação”, comenta Souza.

 

Há anos, Forsyth e FO-USP estudam os mecanismos que levam à resolução da inflamação no periodonto. Um dos focos da parceria são os mediadores lipídicos pró-resolução, como a maresina e a resolvina. “Essas moléculas atuam numa segunda fase do processo inflamatório, no que se conhece hoje como fase de resolução, mas algumas pessoas parecem que não as produzem em níveis adequados ou suas funções parecem estar de alguma forma alteradas”, explica Souza.

 

Estimular a liberação desses mediadores pode ser a saída para melhorar a taxa de sucesso das chamadas terapias regenerativas. “O trabalho mostra pela primeira vez que os dois mediadores promovem a capacidade regenerativa das células-tronco mesmo na presença da inflamação”, explica Marinella Holzhausen Caldeira, professora da Disciplina de Periodontia da FO-USP e orientadora de Souza no Brasil.

 

Ambientes pró-inflamatórios x ambientes pró-resolução

 

Baseado em achados anteriores, que demonstravam a ação da resolvina e da maresina na regeneração do periodonto, o grupo criou in vitro dois ambientes para as células-tronco: um que representava o tecido inflamado, repleto de citocinas pró-inflamatórias, outro simulando a fase resolutiva da inflamação.

 

“Vimos que a pró-inflamação reduzia a atividade das células-tronco, enquanto a presença da maresina e da resolvina aumentava sua capacidade de proliferar, migrar e adquirir mais rápido as funções das células do tecido perdido”, conta Souza. “Uma vez estimuladas, essas células podem adquirir propriedades semelhantes a cementoblastos, fibroblastos e osteoblastos, células que formam o periodonto”, explica Caldeira.

 

O achado mostra que é preciso criar um ambiente propício para que as células-tronco realizem seu trabalho. A próxima etapa é entender como utilizar a maresina e a resolvina de forma terapêutica. “Não sabemos em até que nível podemos alterar a capacidade do organismo de sintetizar esses mediadores”, aponta Souza.

 

Uma possibilidade é utilizar seu precursor, o ômega 3, por meio de suplementação. “Estudos clínicos recentes mostram um efeito muito positivo da suplementação, aliada à terapia periodontal básica, que envolve remover o biofilme que se acumula no tecido”, destaca Caldeira. Os benefícios são notados principalmente em pacientes que possuem diabetes ou síndrome metabólica, condições que indicam um perfil inflamatório alterado (leia mais em agencia.fapesp.br/33242).

 

Outra possibilidade seria tratar as células-tronco com as maresinas e resolvinas antes de utilizá-las nos tratamentos clínicos com finalidade regenerativa, melhorando a efetividade da terapia.

 

O futuro do combate à inflamação

 

A descoberta vem da odontologia, mas pode representar avanços no tratamento de outras condições. “Explicar como esses mediadores atuam no processo de regeneração é explicar como o organismo se recupera de uma doença inflamatória”, pontua Souza. Trata-se de uma nova linha de estudos, que pretende revolucionar a abordagem atual dos medicamentos anti-inflamatórios.

 

É a chamada farmacologia de resolução. Recentemente, descobriu-se que a inflamação ocorre em duas etapas. A primeira envolve a liberação de substâncias pró-inflamatórias como parte do processo de defesa natural do organismo a alguma agressão. Depois, por meio da ativação de diferentes enzimas, diversas células sofrem uma mudança em seu fenótipo e a fase de resolução é ativada.

 

Com isso, por exemplo, um macrófago (célula do sistema imune) que produzia muitas citocinas inflamatórias, como o fator de necrose tumoral, passa a secretar os mediadores pró-resolução, que consertam a bagunça deixada pela inflamação. “A fagocitose realizada pelos macrófagos é importante para que a gente se defenda de bactérias e outros microrganismos, mas deixa como resíduo um lixo inflamatório, com efeitos danosos ao organismo”, explica Souza.

 

A transformação promovida pelos mediadores pró-resolução faz com que células de defesa como os macrófagos passem a realizar uma espécie de limpeza local, além de secretar menos toxinas. Tais benefícios parecem se estender também às células responsáveis por restabelecer o que foi perdido na inflamação, as células-tronco. É um raciocínio diferente dos anti-inflamatórios clássicos, que visam interromper ou bloquear a resposta inflamatória. “Na farmacologia de resolução o intuito não é tomar um fármaco para bloquear a inflamação. O que se quer é estimular a fase boa da inflamação, que é a fase de resolução”, avalia Souza.

 

A abordagem parece oferecer vantagens. “No momento, não temos drogas específicas pró-resolução, mas isso vai gerar no futuro alternativas que se sobreponham aos fármacos anti-inflamatórios já existentes, que têm várias limitações e eventos adversos”, destaca Caldeira.

 

O artigo Maresin-1 and Resolvin E1 Promote Regenerative Properties of Periodontal Ligament Stem Cells Under Inflammatory Conditions pode ser lido em www.frontiersin.org/articles/10.3389/fimmu.2020.585530/full.



Fonte: Agência Fapesp | Portal da Enfermagem

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