São Paulo, 29 de maio de 2020
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Hidroxicloroquina não elimina novo coronavírus em pacientes leves a moderados, mostra estudo

15/05/2020

folha

Dois novos estudos, publicados na respeitada revista científica britânica The BMJ, novamente não encontraram evidências de que o uso de hidroxicloroquina traga benefícios para pacientes com a Covid-19, inclusive para aqueles com casos leves e moderados. Além disso, também mais uma vez, os pesquisadores encontraram efeitos adversos no uso da droga.

 

Outros dois grandes e recentes estudos publicados nas renomadas revistas The New England Journal of Medicine e Jama (Journal of the American Medical Association) também não encontraram redução de mortes e intubação em pacientes com Covid-19 que receberam hidroxicloroquina e azitromicina. Essas pesquisas analisaram dados de mais de mil pacientes.

 

Uma das pesquisas publicadas nesta quinta (14) foi feita na China com 150 pacientes com a Covid-19 (dos quais somente dois eram casos graves), entre 11 e 29 de fevereiro, em 16 unidades de saúde do país espalhadas pelas províncias de Hubei (ponto inicial da pandemia), Henan e Anhui. Os autores afirmam que se trata do primeiro estudo randomizado e com grupo controle a analisar o uso de hidroxicloroquina contra a Covid-19.

 

A pesquisa, porém, é aberta —não há grupos "cegos" que não sabem se estão tomando o remédio de fato ou um placebo, para evitar possíveis vieses. Entre os pacientes, 75 receberam hidroxicloroquina (1.200 mg por três dias e 800 mg diárias por até três semanas, dependendo do caso) mais o tratamento padrão, sintomático. Os outros 75 foram submetidos somente ao tratamento padrão.

 

Os pesquisadores avaliaram se o Sars-CoV-2 persistia nos pacientes. Para isso, faziam uso de exames PCR na avaliação dos pacientes e depois nos dias 4, 7, 10, 14, 21 e 28. Quando dois exames seguidos, com 24h de diferença, davam negativo e nenhum seguinte vinha positivo, considerava-se que o vírus não estava mais presente. Além disso, também eram coletados dados vitais dos pacientes.

 

Foi observado que 109 pacientes tiveram resultado negativo para Sars-CoV-2 bem antes dos 28 dias determinados no estudo. Destes, 56 faziam parte do grupo controle (o que recebeu tratamento padrão) e 53 haviam recebido hidroxicloroquina além dos cuidados normais.

 

Com isso, segundo os cientistas, a probabilidade de em até 28 dias a pessoas ter resultado negativo para o vírus era 85% no grupo que recebeu hidroxicloroquina e 81% no grupo de tratamento padrão, ou seja, um resultado similar. Segundo os pesquisadores chineses, os resultados não apontaram que a hidroxicloroquina, aliada ao tratamento padrão, traga benefícios na eliminação do vírus do corpo da pessoa. Eles perceberam também mais eventos adversos gastrointestinais nos pacientes que receberam a droga.

 

Outro estudo sobre hidroxicloroquina também publicado nesta quinta no The BMJ e observacional, ou seja, usa dados de atendimentos passados, não observou efeito da droga para a redução de necessidade de cuidados intensivos ou redução de mortes após 21 dias do início do tratamento.

 

Nele, pesquisadores franceses analisaram dados de 181 pacientes com quadros severos de Covid-19, que necessitavam de ajuda com oxigênio para respirar, mas que não estavam em UTIs. As informações são derivadas de quatro centros médicos franceses. Foi analisada, então, a sobrevivência das pessoas sem a necessidade de internação em UTI.

 

Duas estratégias de tratamentos foram observadas no estudo. Em uma, 84 pacientes receberam uma dose diária de 600 mg de hidroxicloroquina e, na outra, 89 faziam parte do grupo controle, ou seja, o que não recebia a droga. As pessoas foram acompanhadas até morrerem, receberem alta ou até o fim da análise, em 24 de abril. O grupo de pacientes do grupo de intervenção (que tinha menos doenças associadas) recebeu a hidroxicloroquina em até 48h após sua admissão no hospital.

 

Os dados mostram similaridades de desempenho entre os dois grupos de pacientes. Levando em conta possíveis desequilíbrios entre os grupos, os pesquisadores calcularam que dos pacientes que receberam a droga em teste, 76% sobreviveu sem a necessidade de transferência para cuidados intensivos. No grupo controle, o número foi de 75%. Já os níveis de sobrevivência sem evolução para síndrome do desconforto respiratório agudo foram de 69% para quem tomou a hidroxicloroquina 74% para quem não recebeu a droga. Por fim, a sobrevivência geral foi de, respectivamente, 89% e 91% após 21 dias. “Nossos resultados sugerem que pacientes com menos sintomas e melhores prognósticos na admissão não respondem melhor ao uso da hidroxicloroquina”, afirmam os pesquisadores franceses.

 

Efeitos adversos relacionados à droga novamente foram encontrados. Entre os 84 que tomaram a droga, oito (o que representa 10%) tiveram modificações em seus eletrocardiogramas e, por isso, tiveram que interromper o tratamento. De acordo com os cientistas franceses, pode-se argumentar que o tempo de início do tratamento com a droga pode fazer diferença no quadro final. Porém, os pacientes analisados, no momento da inclusão no estudo, tinham sintomas, em média, há sete dias, ou seja, um tempo curto. Mesmo assim, afirmam que a possibilidade deve ser analisada em estudos futuros.

 

O fato do estudo francês ser observacional é uma limitação importante. Estudos maiores, duplo-cegos (onde paciente e médico não sabem o que estão tomando ou receitando), randomizados (como o primeiro reportado aqui) e com grupo controle (como ambos os presentes nesta reportagem) trazem um nível de evidência mais forte.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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