São Paulo, 2 de dezembro de 2020
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Estudo pode facilitar a triagem de doadores para terapia com plasma de convalescentes da COVID-19

19/11/2020

Fapesp

Estudo conduzido por pesquisadores da Fundação Pró-Sangue e da Universidade de São Paulo (USP) aponta que dois testes comerciais amplamente usados para detectar anticorpos contra o novo coronavírus em amostras de sangue – e disponíveis em laboratórios de todo o país – podem também ser úteis na triagem de doadores para terapia com plasma de convalescentes da COVID-19.


A descoberta, segundo os autores, pode ampliar significativamente o acesso a esse tipo de tratamento, uma possível alternativa segura para pacientes em estado moderado ou grave na falta de um medicamento específico contra o novo coronavírus. Os resultados do trabalho foram divulgados em artigo disponível na plataforma medRxiv, ainda em processo de revisão por pares.


“A eficácia dessa terapia está diretamente relacionada com a quantidade de anticorpos neutralizantes existente no plasma sanguíneo do doador. Alguns estudos europeus e também a FDA [Food and Drug Administration, agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos] estabeleceram como nível mínimo um para 160 [1:160], ou seja, após diluir o plasma 160 vezes ainda deve ser possível encontrar ao menos um anticorpo neutralizante. Mas o método hoje usado para fazer essa avaliação é complexo, demorado e limitado a grandes centros de pesquisa”, explica Alfredo Mendrone-Junior, diretor técnico-científico da Fundação Pró-Sangue e primeiro autor do artigo.


De acordo com o pesquisador, a principal técnica usada na triagem de doadores de plasma convalescente, a de vírus-neutralização (VNT), envolve o cultivo do SARS-CoV-2 in vitro, o que requer estrutura laboratorial com nível 3 de biossegurança (NB3) e equipe altamente treinada. Além disso, por ser uma metodologia manual, não é viável para uso em larga escala.


“Nós estávamos buscando um método laboratorial automatizado, fácil de ser feito e com bom valor preditivo. Decidimos então verificar se havia uma correlação entre os valores de anticorpos totais medidos pelos testes sorológicos comerciais e a quantidade de anticorpos neutralizantes existente no plasma. E de fato há uma correlação linear”, conta Mendrone-Junior à Agência FAPESP.


Metodologia


O estudo foi feito com plasma de 214 doadores que contraíram a COVID-19 e se recuperaram. As amostras foram analisadas pela técnica de vírus-neutralização e por outros dois testes sorológicos comerciais – um desenvolvido pelo laboratório Abbot, que usa uma metodologia conhecida como quimioluminescência, e outro do tipo ELISA (teste imunoenzimático), do laboratório Euroimmun. Ao final, os resultados foram comparados.


Como explica Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), os testes avaliados na pesquisa são capazes de detectar no sangue a presença de anticorpos do tipo IgG (imunoglobulina G). Embora sejam úteis para indicar se a pessoa já teve contato prévio com o vírus, não permitem saber contra quais proteínas virais o sistema imune produziu defesas.


O SARS-CoV-2 tem em sua membrana quatro proteínas estruturais: spike ou espícula (S), envelope (E), membrana (M) e nucleocapsídeo (N). A spike é a que forma a estrutura de coroa que dá nome a essa família de vírus e também a que se liga ao receptor da célula humana (a enzima conversora de angiotensina 2 ou ACE2, na sigla em inglês) e viabiliza a infecção.


“Somente são considerados anticorpos neutralizantes [nAbs, na sigla em inglês] aqueles que reconhecem e neutralizam uma parte específica da proteína spike, a que se liga ao receptor ACE2 da célula humana. Os nAbs, portanto, são apenas uma fração dos anticorpos IgG”, explica Sabino.


Segundo Mendrone-Junior, o objetivo do estudo foi verificar se os valores totais de IgG medidos pelos testes sorológicos comerciais se correlacionavam com a quantidade de nAbs mensurada pela técnica de vírus-neutralização. Ou seja, se haveria, no resultado da sorologia, um valor de corte a partir do qual seria muito provável de que no plasma do doador a concentração de nAbs atinge o mínimo de um para 160.


“Tanto no teste de ELISA como no de quimioluminescência a concentração de IgG é medida em densidade óptica [DO]. Valores de DO acima de um correspondem a um resultado positivo, ou seja, indicam que a pessoa já foi infectada e produziu uma resposta imune contra o SARS-CoV-2. Nós mostramos que valores acima de 4,57 têm alto valor preditivo positivo da presença de anticorpos neutralizantes na concentração desejada de 1:160”, conta o pesquisador.


Segundo os autores, a grande vantagem dessas duas técnicas é que, por serem automatizadas, permitem processar entre 400 e 500 amostras por dia. Além disso, estão acessíveis em praticamente todas as localidades do Brasil e da América Latina, o que possibilita ampliar o uso de plasma convalescente no tratamento da COVID-19.


Também conhecida como transferência passiva de imunidade, essa terapia foi desenvolvida em 1891 para o tratamento de difteria, doença causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae. Mais recentemente, foi usada durante surtos de infecções respiratórias, como influenza H1N1 (2009-2010, causador de gripe), SARS-CoV-1 (2003, causador de síndrome respiratória aguda grave) e MERS-CoV (2012, causador da síndrome respiratória do Oriente Médio).


De acordo com Mendrone-Junior, o estudo descrito no artigo é parte de uma parceria de longa data entre pesquisadores da Fundação Pró-Sangue e o grupo da FM-USP coordenado por Sabino. “Temos investigado a prevalência de doenças sexualmente transmissíveis e de arboviroses, como dengue e zika, com base no material coletado nos bancos de sangue. Este ano também passamos a estudar, com apoio da FAPESP, a soroprevalência da COVID-19”, conta.


O artigo Correlation Between SARS-CoV-2 Antibody Screening by Immunoassay and Neutralizing Antibody Testing pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.10.11.20210005v1.



Fonte: Agência Fapesp | Portal da Enfermagem

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