São Paulo, 18 de agosto de 2019
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Estomaterapia | Sílvia Angélica Jorge

Diretora do Departamento de Enfermagem do Hospital de Clínicas/UNICAMP, Conselheira Científica e vice-presidente da Sobest – Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências. Enfermeira Estomaterapeuta TiSOBEST, Graduada e Licenciada em Enfermagem pela Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Ciências Médicas, é Mestre em Enfermagem Fundamental, pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – SP, com Especialização em Estomaterapia na Faculdade de Ciências Médicas/ UNICAMP, Especialização em Nefrologia pela Universidade Federal de São Paulo, Especialização em Administração Hospitalar pela Faculdade São Camilo e Especialização em Desenvolvimento Gerencial pela Universidade Estadual de Campinas. - Email: vicepresidencia@sobest.com.br

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Norma Gill e a criação de uma especialidade mais do que especial

Na data de aniversário da primeira estomaterapeuta do mundo, uma homenagem para lembrar o impacto positivo que a especialidade trouxe para profissionais e pacientes

Especialista: indivíduo que possui habilidades ou conhecimentos especiais ou excepcionais em determinada prática, atividade, ramo do saber, ocupação, profissão. Não por acaso o termo tem origem na palavra especial unida ao sufixo “ista”.

A especialização foi um fenômeno que ocorreu em diversas áreas: Medicina, Direito, Engenharia, Psicologia, Física e tantas outras, tendo como motivação principal, de modo geral, permitir que o profissional pudesse conhecer melhor, em profundidade, sua área de atuação. A evolução do conhecimento e o desenvolvimento científico e tecnológico proporcionaram maior complexidade técnico-científica, dificultando que uma mesma pessoa conseguisse dominar todo o campo de conhecimento de sua área.

Aprofundar passa a ser a forma de dominar bem a área de atuação e traz a possibilidade do aprimoramento, já que o aumento das demandas dificulta atender bem todas os setores. Também contribuiu para a necessidade de especialização o aumento do volume e densidade da população, junto com a evolução do processo da divisão social do trabalho como forma de melhorar o desempenho profissional.

Foi justamente para atender uma demanda especial que surgiu a Estomaterapia, graças a Norma N. Gill-Thompson, que nasceu em 26 de junho de 1920 em Akron, Ohio, Estados Unidos, sendo a primeira estomaterapeuta do mundo. Por essa razão a data é importante aos profissionais da área e para a profissão. Essa comemoração foi denominada de “Norma Gill Day”, em homenagem às suas realizações na Estomaterapia.

“Ser especialista em uma área oferece a oportunidade para que o profissional possa desenvolver cuidados, habilidades técnicas e obter cada vez mais conhecimento em determinado campo de ação”, destaca Maria Angela Boccara de Paula, enfermeira estomaterapeuta, presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências (Sobest). “A especialidade gera identidade ao profissional; traz reconhecimento, credibilidade social e outras conquistas, como espaços junto à equipe profissional, melhor remuneração, satisfação pessoal de concentrar o trabalho especifico e bem direcionado para a problemática em questão e ter mais condições de atender as necessidades do paciente”.

Angela chama atenção ao fato de que o profissional não pode esquecer quais são as bases da sua profissão: antes de ser especialista, é um profissional enfermeiro que tem como meta básica o cuidado na integralidade do ser humano. “A gente não pode se perder sendo especialista demais, sem levar em consideração o ser humano em todas suas dimensões biológicas e psicoespirituais”.

Pacientes também ganham
“Especialidade, quando bem realizada, propicia tanto para o paciente quanto o profissional muitas coisas positivas”, afirma Angela, ressaltando os benefícios para os pacientes. “O profissional especializado propicia ao paciente melhor qualidade de assistência específica e direcionada aos problemas que a pessoa tem naquele campo de abrangência da especialidade. Gera segurança de atendimento. O paciente e a família vão sentir-se seguros com a prescrição e a orientação, garantindo melhor eficácia no resultado”.

Para a presidente da entidade, a segurança que o paciente sente ao ser tratado por um profissional especializado em suas necessidades possibilita maior adesão ao tratamento, pois recebe orientações específicas sobre os cuidados necessários e aprende a se autocuidar e seguir essas indicações. “Com isso, ele volta a ter uma vida mais próxima da que tinha antes da cirurgia ou agravo, por exemplo. Ele sente segurança, credibilidade e respeito pelo profissional que consegue atende-lo além da estomia, além da ferida ou da incontinência”.

Nascimento da Estomaterapia
“A história da especialidade em Estomaterapia nasceu com uma paciente que passou a se autocuidar muito bem e, ao fazer isso, chamou atenção do médico que a atendia e percebeu que aqueles cuidados no pós-operatório seriam importantes para os pacientes”, recorda Angela.

Norma Gill foi operada pelo médico Rupert Turnbull Jr. em 1954, sendo realizada uma ileostomia em decorrência de retocolite ulcerativa. Quando percebeu que as pessoas com estomias não tinham apoio psicológico, nem informações para cuidar da sua estomia, começou a apresentar a médicos sua ajuda, visando a reabilitação dos pacientes. Em 1958, foi convidada por Turnbull e passou a atuar na Cleveland Clinic Foundation - EUA, como técnica em estomia. Era grande a demanda pela expansão desse conhecimento. Por isso, em 1961 foi criado o primeiro curso de Estomaterapia do mundo – e a data marcou o nascimento da Estomaterapia.

“Ela foi uma visionária. Não só desenvolveu a Estomaterapia junto a grupos específicos, mas entendeu que este cuidado era da enfermagem e por isso começou a trabalhar com enfermeiras, até que fundou a associação americana WOCN – Wound Ostomy and Continence Nurses Society”, conta Angela. “Ela sabia que para ter força e credibilidade precisaríamos nos unir. As pessoas iam fazer o curso, aprendiam e voltavam aos seus países. Como aconteceu no Brasil, que os profissionais vinham a São Paulo e voltavam aos seus locais para levar o conhecimento”.

No Brasil, a Estomaterapia foi formalmente instituída em 1990, mas na década anterior enfermeiras buscaram em outros países formação especializada. Entre elas estava a professora Vera Lúcia C.G. Santos, que criou o primeiro curso de especialização no país. Em 1984, um pequeno grupo de estudos seria o embrião para o que levaria à união das enfermeiras estomaterapeutas no Brasil. O grupo foi desativado em 1986, mas a semente permaneceu. A implantação da especialidade e o aumento do número de especialistas levou à reativação das atividades do grupo e em 4 de dezembro de 1992 foi fundada a Sobest.

Angela Boccara salienta que com as ações de Norma Gill foi possível tornar a especialidade reconhecida e criar o Conselho Mundial de Estomaterapia (World Council of Enterostomal Therapists – WCET), que dita as diretrizes da formação especializada, promove conferências internacionais e capacitações onde não existem especialistas. “Existe também a Fundação Norma Gil dentro do WCET, que propicia bolsas de estudos para pessoas de países menos desenvolvidos, auxilia na compra de livros e apoia a ida aos congressos. Tudo graças à Norma e, por isso, com essa trajetória, ela precisa ser homenageada”.

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