São Paulo, 20 de outubro de 2018
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Tristeza é sentimento que permeia época eleitoral; saiba como se proteger

2/10/2018

Eleições

A cinco dias das eleições, a tristeza é um sentimento que ronda a mim e a muitos que me cercam. As sucessivas crises de todas as ordens, incluindo a econômica, a ética e a institucional, sobrepostas a esse momento de polarização cega parecem drenar as energias.Em agosto último, o rapper Emicida já havia percebido esse sentimento no ar: "O Brasil tá com um clima de tristeza. O povo tá sem saber o que fazer, não tem onde agarrar, não tem uma coisa segura em que acreditar. Falta essa liderança e a falta desse chefe de Estado faz isso com as pessoas", disse.

 

Agora, isso foi mapeado de fato. A AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais, detectou a tristeza como um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República.

 

Segundo a empresa, é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

 

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

 

Consultei dois psicólogos sobre esse sentimento e o que podemos fazer, individualmente, para nos proteger um pouco. O psicólogo Fred Eckdchmidt lembra que o psicanalista Carl Jung (1875-1961) fez uma ótima análise sobre o comportamento das massas após ter visto de perto a Segunda Guerra Mundial. Ele descreve que, nesses momentos, emoções como tristeza, medo e esperança tomam conta de certos grupos. Tomadas por essa catarse, as pessoas deixam de pensar de forma individual e começam a atuar uma ideia coletiva, pensando e se comportando de maneira muito pouco racional. 

 

"Esse é o momento em que muitas projeções ocorrem e a pessoa pode ficar paranoica, transferindo conteúdos inconscientes individuais e sociais ao "outro", ao "diferente". Esse grupo ou indivíduo em que são projetados esses conteúdos são vistos como a fonte de todo o mal. Esse quadro de ansiedade constante pode causar transtornos mentais como a depressão."

 

Segundo Fred, para quem já estiver comprometendo relacionamentos ou atividades laborais, a dica é reduzir ou sair de vez das mídias sociais ou de frente da TV pelo menos por um tempo. Praticar atividades físicas e/ou qualquer outro tipo de lazer também funcionam como antídotos.

 

A psicanalista Helena Lima enumera alguns caminhos possíveis para enfrentar esse momento. O primeiro é elaborar o luto em relação às eleições passadas, relembrar o que deu certo e o que deu errado, entendendo e aceitando que algumas escolhas foram certas e outras não. O segundo ponto diz que respeito em como se proteger dos ataques dos opositores. "É desenvolver uma relação quase de porco espinho com familiares e amigos que são confrontantes."

 

Segundo Helena, ao mesmo tempo que esquivar-se física ou virtualmente pode ser útil, é importante, se houver brecha, questionar o outro sobre plataformas do seu candidato para áreas importantes como educação, cultura e saúde. "Infelizmente, o que eu tenho visto é que as pessoas não têm respostas, não sabem o que o candidato ou o partido estão elaborando."

 

A terceira recomendação é pensar no tipo de projeto de vida que temos e em quem minimamente se aproxima dele ou não. "É um desalento o voto obrigatório, a gente sabe dos currais eleitorais, mas um ponto positivo é que as pessoas que tinham um fascismo encapsulado perderam o pudor."

 

A psicanalista também chama a atenção para uma banalização de palavras como minorias, violência, ódio. "Tem um livro chamado 'A Linguagem no Terceiro Reich', que fala da estratégia da extrema direita do esvaziamento dos significantes, uma infantilização dos termos para que todas as pessoas se sintam contempladas em sua ignorância."

 

Por fim, mais do que nunca, é importante neste momento se nutrir emocionalmente. Invista tempo, energia e dinheiro, se houver, em atividades prazerosas. Vale uma caminhada com a amiga, fazer uma hora de massagem, ver um filme ou seriado que te agrade ou ainda tomar umas com os amigos.

 

"Essas eleições vampirescas estão drenando as nossas energias. Cada um precisa descobrir dentro de si como se fortalecer para levantar no domingo, saber em qual tecla vai apertar e o por quê. Isso vale para todas as teclas", diz Helena. Eu acrescentaria a essas dicas um banho de sal grosso. Mal não vai fazer.

 

Cláudia Collucci - Jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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