São Paulo, 13 de dezembro de 2018
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OMS lança plano para eliminar gordura trans em todo o mundo até 2023

16/5/2018

Gordura trans

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou na segunda-feira um plano abrangente que insta governos de todo o mundo a eliminar o uso de gordura trans, o tipo de óleo comestível processado industrialmente que deu origem à margarina, gordura vegetal e outros produtos que congestionam as artérias e foram vinculados a milhões de mortes prematuras.

 

A gordura trans artificial, mais conhecidas de muitos consumidores americanos sob o nome de óleo vegetal parcialmente hidrogenado, contribui para em média meio milhão de mortes ao ano, muitas das quais nos países em desenvolvimento, mal equipados para lidar com as ameaças à saúde relacionadas a um produto apreciado pelo preço baixo e durabilidade.

 

A campanha da OMS, que é mais um conjunto de normas que um édito, quer erradicar a gordura trans dos suprimentos mundiais de alimentos até 2023, o que poderia salvar 10 milhões de vidas, de acordo com a organização.

 

A campanha foi desenvolvida em parceria com a Vital Strategies, uma organização internacional de saúde apoiada por Michael Bloomberg, que adotou a primeira proibição municipal à gordura trans quando era prefeito de Nova York, em 2006.

 

Recentemente, no Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) abriu um processo para aumentar a restrição ao uso de gordura trans em alimentos industrializados e avalia até proibi-la. A ideia é estudar modelos para reduzir a presença desse tipo de gordura, usada para aumentar o prazo de validade e garantir textura e crocância aos produtos.

 

Thomas Frieden, médico que foi comissário municipal da saúde em Nova York no governo de Bloomberg, foi uma das forças propulsoras da proibição, e disse que o esforço da OMS era uma maneira de baixo custo para que os países em desenvolvimento reduzissem a mortalidade das doenças cardiovasculares, que causam 17 milhões de mortes ao ano.

 

"Se o mundo substituir a gordura trans, as pessoas não sentirão diferença no sabor, mas a sentirão no coração", disse Frieden, presidente da Resolve to Save Lives, uma iniciativa da Vital Strategies cujo foco é eliminar a gordura trans dos suprimentos mundiais de alimentos.

 

Alguns países já agiram para restringir ou proibir a gordura trans, também conhecida como ácidos graxos insaturados, entre os quais Dinamarca, Suíça, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos. A partir do mês que vem, não poderá haver gordura trans em quaisquer produtos vendidos nos Estados Unidos. A Tailândia deve proibir seu uso nas próximas semanas.

 

Mas a gordura trans continua popular em muitas economias de mercado emergente, especialmente no sul da Ásia, onde produtores locais dominam o mercado de óleos comestíveis e a regulamentação é fraca ou inexistente. "A realidade é que os fabricantes mundiais de alimentos fizeram um ótimo trabalho na redução da gordura trans em países ricos, mas em geral ignoraram a África e a Ásia", disse Barry Popkin, professor de nutrição na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

 

Na Índia, a gordura trans muitas vezes toma a forma de vanaspati, um óleo de cozinha barato que costuma ser usado repetidamente por restaurantes e barracas de comida de rua. Pesquisadores dizem que o processo de reaquecer o vanaspati, feito de óleo de palma, o torna ainda mais letal e provavelmente contribui para a disparada das doenças cardíacas no sul da Ásia.

 

Um estudo publicado pela revista acadêmica Nutrition constatou que a probabilidade de morte por ataque cardíaco é 62% mais alta no Paquistão do que na Inglaterra e no País de Gales. Até recentemente, os esforços do governo indiano para reduzir o uso do vanaspati vinham sendo bloqueados pelos fabricantes de alimentos. Frederico Branca, nutricionista chefe da OMS, disse que a iniciativa da organização buscará superar essa resistência por meio de campanhas de educação pública e ao encorajar os governos a adotar regulamentos que eliminem a gordura trans produzida pelos fabricantes locais de alimentos.

 

Mas a organização também recorreu a empresas multinacionais que já substituíram a gordura trans em seus produtos, pedindo que compartilhem seu know-how tecnológico com os produtores locais. "É fácil adotar óleos mais saudáveis, e os consumidores não perceberão diferenças de sabor", disse Branca. "É uma forma realmente simples de prevenir doenças cardiovasculares, e os governos não precisam gastar muito para que isso aconteça".

 

Entre as empresas que aderiram ao esforço está a Mondelez International, a gigante americana do setor de alimentação que fabrica os biscoitos Oreos, o chocolate Cadbury e muitos salgadinhos que antes incluíam gorduras trans. "Apoiamos o trabalho da organização e os esforços setoriais mais amplos para difundir as melhores práticas e ajudar a orientar outras empresas, para que possamos atingir a meta mundial da OMS", afirmou um porta-voz da companhia em email.

 

Antes mesmo que a Food and Drug Administration (FDA), a agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios, anunciasse a proibição, três anos atrás, a maioria das empresas dos Estados Unidos já havia começado a reduzir ou eliminar o uso de gordura trans em bolachas, bolos e alimentos congelados. A virada começou em 2006, depois que a FDA promulgou novas regras nas quais exigia que as embalagens dos produtos contivessem informações sobre a presença de gorduras trans.

 

Muitas empresas, preocupadas com a possibilidade de que isso afetasse negativamente as vendas, começaram a adotar gorduras e óleos mais saudáveis. Em 2012, mesmo a gordura vegetal Crisco havia abandonado o uso de gordura trans. Popularizada na década de 1950 e um dia celebrada como alternativa saudável à gordura saturada da manteiga e da banha, a gordura trans viria a ser implicada em ataques cardíacos e derrames súbitos, e também está associada a risco mais alto de diabetes tipo 2 e até mesmo de infertilidade nas mulheres.

 

Inventados na virada do século passado, os ácidos graxos insaturados são criados por uma mudança na estrutura molecular dos óleos vegetais. O processo endurece o óleo, estendendo sua durabilidade, e confere a produtos como coberturas de bolo e cupcakes uma textura cremosa; no entanto, o produto também causa fortes estragos no sistema circulatório humano. Os efeitos adversos incluem elevação no nível do colesterol ruim e declínio no nível de colesterol bom. Um estudo publicado no ano passado pela revista acadêmica Journal of the American Medical. 

 

Association constatou que as pessoas que viviam nas partes do estado de Nova York onde a gordura trans havia sido proibida há três ou mais anos tinham incidência menor de ataques cardíacos e derrames. Na Dinamarca, o primeiro país a proibir a gordura trans em produtos alimentícios, os resultados foram mais dramáticos. De acordo com um estudo publicado no The American Journal of Preventive Medicine, a mudança lá ajudou a salvar 14,2 vidas por 100 mil pessoas, a cada ano.

 

Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição na Escola T.H. Chan de Saúde Pública, Universidade Harvard, disse acreditar que a iniciativa da OMS viesse a resultar na extinção da gordura trans, no futuro próximo. "Mesmo que a OMS não tenha capacidade de fiscalização, seus esforços são levados a sério por governos de todo o mundo", ele disse.

 

Na década de 1970, Willett foi um dos primeiros pesquisadores a soar o alarme quanto a gordura trans, posição que lhe valeu o escárnio da indústria do alimento e até mesmo de alguns colegas nutricionistas. Ainda que alguns fabricantes americanos tenham resistido aos esforços de proibir a gordura trans, eles terminaram derrotados pelas pesquisas cada vez mais preocupantes que começaram a se acumular, da década de 1990 em diante.

 

Willett disse que planejava celebrar o início da proibição oficial pela FDA, no mês que vem, erguendo uma torre de gordura trans e depois a derrubando. A ideia só enfrenta um problema: "Estamos tentando comprar gordura trans", ele disse, "mas não a encontramos em lugar algum".



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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