São Paulo, 24 de novembro de 2017
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Cientistas usam retrovírus para restaurar pele de garoto

9/11/2017

Erro genético

Pesquisadores europeus conseguiram alterar o DNA de células humanas e usá-las para restaurar quase toda a pele de um menino de sete anos, cuja epiderme tinha sido devastada por uma doença genética rara.

 

Quase dois anos depois do primeiro transplante, o garoto, que corria risco de morte quando foi hospitalizado, não sofre mais com os sintomas da epidermólise bolhosa, cujas diferentes formas afetam cerca de 500 mil pessoas no mundo todo.

 

Se os bons resultados do procedimento forem confirmados em testes com mais pacientes, será um avanço importante não apenas para quem sofre de problemas graves na epiderme, mas também para a área da terapia genética como um todo.

 

Embora o tratamento do pequeno paciente tenha começado na Unidade de Queimados do Hospital Pediátrico da Universidade do Ruhr (Bochum, Alemanha), a pesquisa que salvou sua vida foi coordenada por Michele De Luca, da Universidade de Modena e Reggio Emilia, na Itália.

 

Em artigo na revista científica "Nature", De Luca e seus colaboradores relatam que o menino chegou ao hospital, em junho de 2015, com infecções bacterianas severas ligadas às constantes lesões na pele. Quando passou pela primeira operação, já tinha perdido cerca de 80% de sua epiderme.

 

Isso aconteceu porque o tipo de epidermólise bolhosa severa que afetava o garoto alemão desde o nascimento destrói quase totalmente a "cola" molecular que dá estabilidade à epiderme e permite que, em condições normais, ela fique firmemente ancorada nos tecidos mais abaixo. O resultado disso é uma pele extremamente frágil, com aparecimento constante de bolhas e ferimentos que não saram, além de um risco aumentado de câncer nessa região.


AJUDA VIRAL

 

Para tentar enfrentar o problema, os pesquisadores extraíram uma amostra de alguns centímetros de pele saudável que ainda restavam no corpo da criança. Depois, com a ajuda de um retrovírus (que consegue inserir seu material genético no DNA das células que infecta, como faz o vírus da Aids), eles corrigiram, nessas células, o erro genético que desencadeia a doença, ligado a uma mutação no gene LAMB3.

 

A partir desse momento, as células geneticamente modificadas passavam a contar com as informações necessárias para a formação de uma epiderme saudável –foi como substituir o texto incorreto de um manual de instruções para montar um móvel pelo texto certo.

 

As células alteradas, cultivadas em laboratório, foram se multiplicando e formando diferentes populações celulares. Os chamados holoclones continham as células com grande capacidade de multiplicação e versatilidade (ou seja, capazes de formar diversos tipos de células da pele); os meroclones tinham algo dessas propriedades, mas em menor grau; e os paraclones correspondiam a células já maduras.

 

Esse conjunto foi usado para montar uma epiderme transgênica, a qual foi sendo paulatinamente transplantada para o corpo do jovem paciente, num processo que durou alguns meses. Como as células usadas descendiam das que foram obtidas do próprio organismo dele, não houve episódios de rejeição.

 

Ao que tudo indica, com o passar do tempo, os holoclones passaram a predominar na população de células, renovando constantemente a epiderme transplantada.

 

E a abordagem, de maneira geral, funcionou muito bem: a epiderme que se desenvolveu a partir dos trechos transplantados, recobrindo as antigas lesões, é tão resistente e sadia quanto a de uma criança sem a doença. O menino recebeu alta em fevereiro de 2016.

 

DESAFIOS

 

Outra notícia animadora vem da análise genética das células transplantadas. Um temor antigo relacionado à chamada geneterapia, que envolve a modificação do DNA para tratar doenças, é que os vírus usados no processo acabem inserindo o material genético em regiões sensíveis do genoma humano, desencadeando câncer e outros problemas. No protocolo desenvolvido pela equipe europeia, ao que parece, nada disso ocorreu.

 

Mas ainda vai ser preciso refinar a técnica para que ela possa ser oferecida a mais pacientes, advertem Mariaceleste Aragona e Cédric Blanpain, do Laboratório de Células-Tronco e Câncer da Universidade Livre de Bruxelas, que comentaram o estudo a pedido da própria "Nature".

 

Mutações em diversos genes podem desencadear variantes da epidermólise bolhosa, e alguns deles são mais complicados de consertar que o LAMB3. Além disso, provavelmente é mais fácil enfrentar o problema em crianças, cujas células tendem a apresentar maior potencial de autorrenovação, do que em pacientes adultos.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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