São Paulo, 17 de outubro de 2017
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Aumento da amamentação faria país economizar US$ 6 mi em saúde

19/4/2017

Muito já se discutiu sobre os conflitos de interesse entre médicos e farmacêuticas e, mais recentemente, entre os profissionais da saúde e a indústria de órteses e próteses ("máfia das próteses").

 

Mas pouco se fala sobre outra poderosa indústria e igualmente envolvida em conflitos éticos com a área médica: a da alimentação, especialmente, a de fórmulas infantis.

 

No fim do ano passado, esse assunto gerou um debate acalorado no Reino Unido, após o Colégio Real de Pediatria e Saúde Infantil decidir que continuaria aceitando financiamento de fabricantes de substitutos de leite materno (as fórmulas infantis).

 

A decisão violaria um código internacional de comercialização de substitutos do leite materno e outras resoluções que proíbem a aceitação por parte de profissionais de saúde de incentivos financeiros e/ou materiais (bolsas de estudos e viagens a congressos, por exemplo) por parte da indústria e também recomendam que as associações médicas não aceitem patrocínios para eventos.

 

Vários estudos na área de psicologia já demonstraram os riscos envolvidos nos incentivos financeiros na área da saúde, especialmente em relação ao sentimento de obrigação e lealdade à empresa patrocinadora.

 

Há anos que as entidades de defesa da amamentação, como a rede Ibfan (Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável), alertam para a promoção inadequada dos substitutos do leite materno nos serviços de saúde e o impacto disso no desmame precoce e nas doenças e mortes infantis.

 

Uma série publicada em 2016 na revista médica inglesa "The Lancet" sobre o aleitamento materno mostrou que a melhoria das práticas de amamentação poderia salvar a vida de 820 mil crianças pequenas todos os anos, reduzir as taxas de obesidade e diabetes tipo 2 e melhorar o desempenho em testes de inteligência em pessoas que foram amamentadas.

 

Ou seja, substituir o leite materno deveria ser uma medida extrema, só em último caso. Mas hoje há evidências suficientes de que essa substituição é feita de forma inadvertida na maioria dos casos. E as práticas agressivas de marketing desses produtos junto aos profissionais de saúde têm muito a ver com isso.

 

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que os bebês recebam exclusivamente leite materno até os seis meses e continuem mamando no peito até os dois anos ou mais (associando ao leite uma alimentação complementar saudável).

 

A série especial do "The Lancet" alerta sobre os índices globais de amamentação exclusiva em crianças menores de seis meses, que ainda estão abaixo de 50% na maioria dos países.

 

O Brasil avançou nessa área, com taxa de 41%. Isso é o dobro das taxas de aleitamento exclusivo até os seis meses e 12 meses de vida registradas em países como os Estados Unidos, Reino Unido e China.

 

A revista indica que um aumento de dez pontos percentuais no índice de amamentação exclusiva até os seis meses ou da amamentação continuada até os dois anos ou mais se traduziria numa economia em tratamentos de saúde de US$ 6 milhões no Brasil.


NO CINEMA

 

Voltando aos riscos do marketing das fórmulas infantis, há um filme que revela com muita clareza os malefícios dessa prática. "Tigers", do diretor-escritor e vencedor do Oscar, Danis Tanovic, denuncia o lobby da indústria de leite artificial e seu consequente prejuízo à saúde dos bebês.

 

Na semana passada, o filme foi exibido em São Paulo por uma iniciativa da ACT Promoção da Saúde, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e Rede IBFAN. Após o evento, houve um debate e uma leitura emocionada de uma carta enviada pelo paquistanês Syed Aamir Raza (Ayan), cuja história real inspirou o filme.

 

Ao trabalhar como representante de vendas de fórmulas infantis em seu país, ele descobriu que estava promovendo um produto que causa diversos problemas de saúde em bebês, como desnutrição, diarreia e até mortes.

 

Apoiado pela sua família e pela Ibfan do Paquistão, Raza decide denunciar as estratégias agressivas e ilegais que a multinacional utiliza para promover seu produto. Como consequência, passa a ser perseguido por seus antigos empregadores e tem que fugir do país. Ficou sete anos sem ver a mulher e os filhos.

 

Nesse período, seus pais adoeceram e morreram sem que ele pudesse visitá-los. Em sua carta, Raza questiona por que a OMS continua permitindo práticas abusivas de marketing de fórmulas infantis, fazendo com que o alimento artificial concorra com o insubstituível leite materno. A pergunta continua sem resposta.

 

O filme foi lançado no Festival de Cinema de Toronto, Canadá, San Sebastian, Espanha e Zurique, na Suíça, em 2014. Mas ainda não conseguiu chegar ao circuito comercial por falta de patrocínio.

 



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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