São Paulo, 24 de June de 2017
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Dicas do Especialista

Projetos de reformas e ampliações fazem parte da rotina de instituições de saúde. Assim, o profissional de enfermagem deve ser protagonista neste cenário, uma vez que seu conhecimento no processo de cuidar  é fundamental  para que o projeto seja bem desenvolvido e que a infra-estrutura oferecida seja uma aliada nas atividades desempenhadas.

Ao elaborar um projeto de arquitetura, o arquiteto observa algumas premissas básicas como circulação (horizontal e vertical), fluxo, contiguidade entre setores, escolha de materiais de revestimento e uso de cores, infra-estrutura necessária (em termos de instalações prediais), iluminação e ventilação naturais, flexibilidade a mudanças futuras, novas ampliações, além de questões tão presentes como a sustentabilidade.

Além dessas premissas, existem as legislações locais como código de obras de cada município e específicas como as resoluções, portarias e leis da Vigilância Sanitária, do CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), CONAMA, Portarias do Ministério da Saúde etc.Um dos materiais de referência mais utilizados na elaboração de projetos é a Resolução – RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, que dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde.

A participação do enfermeiro é fundamental na etapa de levantamento de necessidades (onde o mesmo informará como funciona determinado setor, qual a rotina, como é feito o acesso de pacientes, visitantes, médicos, suprimentos, medicação, resíduos etc),na avaliação do projeto de arquitetura e posteriormente na  pós-ocupação, uma vez que sua equipe permanece  no ambiente dia e noite e participa de todas as fases do processo de trabalho, explica a arquiteta e urbanista Renata Passareli, especializada em projetos e obras de instituições de saúde.

Com base em sua experiência de mais de 15 anos, desenvolvendo projetos e acompanhando obras de reformas e ampliações, Renata apresenta alguns fatores de análise que o enfermeiro deverá observar na avaliação dos projetos de arquitetura: 

Circulação Horizontal e Vertical: dependendo do setor a ser reformado, observar se sua localização dentro do estabelecimento é a mais adequada. Por exemplo, um pronto-socorro que o cliente precisa utilizar elevador para receber o primeiro atendimento não é a situação ideal. Em geral, esta unidade dá acesso direto ao nível da rua, facilitando o entra e sai de veículos particulares, táxis, ambulâncias e pedestres e evitando a sobrecarga de sistemas de transporte vertical (elevadores). Outro exemplo: uma área em que serão instalados equipamentos pesados como ressonância magnética, tomografia e que necessitam uma base de concreto, devem ficar preferencialmente no piso que está diretamente apoiado na terra, evitando-se assim, reforços na estrutura (quando ficam em pavimentos acima do solo) que oneram o custo da obra e tornam a logística de execução muito mais complexa.

Fluxo: este é outro ponto fundamental no sucesso de cada unidade. Quais os acessos de entrada e saída de pessoal (funcionários, médicos, acompanhantes, visitantes), material (medicamento, mobiliário, equipamentos, resíduos), se há necessidade de acesso de veículos (dependendo da unidade funcional), como é efetuada a retirada de mortos etc.

Contiguidade entre setores: em um edifício que será construído, quais as unidades devem ficar mais próximas umas das outras. Em cidades como São Paulo, cujos terrenos disponíveis são cada vez mais escassos e caros e não há possibilidade de implantação de hospitais gerais térreos, é muito importante se atentar a esta questão. A área de diagnósticos deve ficar mais próxima do pronto-socorro? O centro cirúrgico deve ficar contiguo a unidade de tratamento intensivo? Tudo depende do tipo de edifício hospitalar: é um hospital com predomínio de cirurgias de alta complexidade e eletivas? É um local de referência no atendimento de urgências e emergências?

Materiais de Revestimento e Uso de Cores: este é outro tema de relevância dentro do projeto. Às vezes, um material genial usado em projetos comerciais não é o mais adequado para ser instalado em uma instituição de saúde (exemplo: tapetes e carpetes, papel de parede). As instituições possuem uma grande circulação de carros de todos os tipos: de comida, de remédio, de pessoas, do pessoal da hotelaria, do pessoal da manutenção, de roupas, de limpeza, de resíduos, etc. Além disso, existe um fluxo de pessoas intenso e tem a questão de ser um ambiente que tem contato com fluidos corpóreos.

Assim sendo, os pisos devem ser os que são mais fáceis de limpar, os que dão menos manutenção, os que têm fácil reposição. O mesmo deve ser pensado para as paredes. Quanto ao uso de cores, como é um ambiente bastante pesado, com pessoas em sofrimento, com dor, não é recomendado usar cores fortes ou estimulantes como o vermelho, o violeta, cores cítricas.Trabalhar só com cores pastel não vai estimular ninguém a se recuperar mais rapidamente.

Infra-estrutura necessária: informar ao arquiteto onde a iluminação deve ser diferenciada (em locais onde se puncionam, por exemplo), onde deve ser dimerizável (regulada para ficar mais forte ou mais suave) como em salas de exames da área de imagenologia, qual a melhor posição e a quantidade de tomadas (em salas de guarda de equipamentos que tem bombas de infusão que precisam ficar carregando, por exemplo), necessidade de pressão negativa ou positiva (quando se trabalha com imunodeprimidos ou em salas cirúrgicas), necessidade de climatização (não só pelo conforto térmico, mas para que determinados equipamentos funcionem adequadamente), pontos de gases medicinais (quais os que são usados em cada local) para que fiquem determinados no projeto antes que o projeto de arquitetura seja encaminhado aos projetistas de instalações. Observar tamanhos de vãos de portas dos ambientes (se passa maca, cadeira de rodas), tamanho de portas de elevadores e tamanho de cabine de elevadores (os elevadores que transportam maca possuem portas maiores e são mais longos).

Outro item importantíssimo: o mobiliário! A melhor disposição, o desenho de cada armário, de cada balcão, de maneira a atender a necessidade de cada ambiente. O encontro da forma, da função, do belo tornando o ambiente acolhedor, pensado em cada detalhe para fazer quem trabalha no local e quem está em busca de melhoria de sua condição de saúde, sentir-se bem, desempenhando sua atividade com fluidez, com eficiência.

Iluminação e ventilação naturais: apesar deste item ser fundamental, nem sempre, em construções verticais é possível ter janelas em todos os ambientes. Mas, nos ambientes de permanência prolongada, deve-se se ater a este ponto. Sol e ventilação natural são aliados para manter o ambiente salubre, com renovação constante do ar. Além dos aspectos sanitários, tem os psicológicos: pessoas em ambientes que recebem a luz solar tendem a se recuperar mais rapidamente.

Flexibilidade a mudanças futuras e novas ampliações: quando um projeto de arquitetura é desenvolvido para determinada unidade funcional, é conveniente que este projeto esteja inserido em um Plano Diretor, que nada mais é que um orientador do crescimento da instituição de saúde ao longo de um tempo pré-estabelecido (10, 15, 20 anos por exemplo). Ou seja, faz-se um planejamento antecipado das intenções de crescimento, de expansão (e, claro que este plano diretor pode ser revisado de tempos em tempos) para se evitar os indesejados “puxadinhos”, as intervenções “tapa-buraco” que não sanam os problemas de infra-estrutura das instituições. É importante ressaltar que se há intenção de duplicar a quantidade de salas cirúrgicas, deve-se pensar em ampliar central de material esterilizado, farmácia, suprimentos, quiçá unidade de terapia intensiva etc. Tem que se pensar no todo, pois o custo de execução de obras em instituições de saúde não são baixos e erros de planejamento ou de projeto podem acarretar novas intervenções em um prazo muito menor do que o esperado. Fora o desconforto de se fazer uma intervenção em um local que funciona 24h por dia, 7 dias por semana!

Sustentabilidade: este é um tema que as instituições de saúde devem considerar desde o projeto de arquitetura: tornar a operação do hospital mais eficiente, mais consciente em relação ao meio ambiente, usar a tecnologia disponível de energia renovável quando possível, uso racional de água, de equipamentos de ar condicionado, materiais de revestimento cuja fabricação é menos agressiva ao nosso planeta. São questões que já fazem parte de nosso cotidiano. Reciclar o que for possível no resíduo gerado na construção.

Ações que podem contribuir para melhorar a vida das pessoas que usam os serviços de saúde, que trabalham nestes locais. Que beneficiem a comunidade do entorno.

Outras dicas:
* Como o enfermeiro circula muito dentro dos estabelecimentos de saúde, é muito importante ele avaliar – dentro da estrutura física de cada lugar – os percursos, a questão de tempo e movimento. Assim, é possível fazer com que o espaço de trabalho seja um aliado na produtividade da equipe e não um elemento de desgaste.

* Ficar atento em algumas áreas como sala de equipamentos, expurgos, DML, sala de resíduos, ou seja, as chamadas áreas de apoio, se têm espaço e instalações adequados e suficientes para atender a demanda de cada unidade.

* Ter atenção aos banheiros dos pacientes: no formato, se é possível dar um banho no paciente de cadeira de rodas sem tomar banho junto, se há chamada de enfermagem prevista no projeto dentro do banheiro, como entra e se movimenta a cadeira de rodas etc.

* Estar bem esclarecido para que sejam evitados retrabalhos durante a execução, o que causa aditivos financeiros à obra, atrasos e desgastes desnecessários. Uma maneira interessante de indicar como será o espaço planejado é marcar com fita crepe no piso os limites de parede dos ambientes propostos. Fica mais fácil entender o tamanho real do ambiente, a posição dos móveis e avaliar o uso de cada local.

A profissional finaliza enfatizando que a troca Arquiteto X Enfermeiro é de suma importância no desenvolvimento da obra ou reforma. “Pautar-se apenas pelas normas vigentes nem sempre traz o resultado final desejado a vivência da prática traz ao profissional uma visão mais holística em relação ao funcionamento de cada unidade funcional”.Citando um exemplo banal: “nem todo arquiteto sabe que as bombas de infusão na sala de equipamentos ficam ligadas na tomada. E, citando a RDC 50 que exige um DML com área mínima de 2m2 (uma sala de 1x2m). Imagine colocar neste espaço um tanque, um armário e um carro de limpeza...”

Passareli R. Análise de projetos de Arquitetura [internet] 2011 [citado 2011 Janeiro 05]. Disponível em http://www.portaldaenfermagem.com.br

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Fonte: Arquiteta Renata Passareli - www.lupa-design.net


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2/18/2011 - silvia rodrigues tolomeotti Monte Negro-RO
boa tarde renata ,sou enfermeira a 5 anos e sempre temos dificuldades com os prejetos hospitalares onde acabam dificultando o nosso trabalho em questao de agilidade e fluxo ,preciso de uma ajuda estamos reformando o hospital o bloco da urgencia emergencia e eu estou colaborando para facilitar mais tenho muitas duvidas como posso entrar em contato com vc.um abraço

1/10/2011 - Cristina Rodrigues Sao Paulo-SP
Parabéns Renata...como sempre objetiva, clara e conhecedora de sua área...muito boa as informações fornecidas.

1/6/2011 - Ana Maria Campo Alves da Cunha Sao Paulo-SP
Parabens pelo material Tenho muito orgulho de ter trabalhado com voce. Sei o quanto valoriza e atende as solicitações da enfermagem

1/5/2011 - carlos canhada Sao Paulo-SP
Olá Arquiteta Renata... Parabéns pela sua matéria! Está muito clara e objetiva. Quando as reformas e construções acontecem dessa forma, com essa interação com os profissionais de enfermagem, tudo tendo a dar mais certo. Facilita inclusive, a otimização de tempo da enfermagem, maior segurança na prestação do cuidado e melhor organização ambiental. Acrescento, que no momento desse planejamento, é necessário se pensar nas possibilidades de padronização de áreas físicas e disposição de mobiliários, principlamente, por facilitar maior organização e disposição dos materiais e medicamentos nos postos de enfermagem. Há de se levar em consideração, a necessidade em determinados momentos de remanejamento de pessoal de uma a outra área. Considero os aspectos tratados na sua matéria extremamente importantes, pois reflete diretamente na Qualidade da Assistência prestada. Parabéns também ao Portal da Enfermagem, por facilitar e se preocupar com a disseminação de conhecimentos tão importantes como este. Um abraço!

1/5/2011 - Silvia Alves Sao Paulo-SP
Útil, objetiva e didáticas as dicas da arquiteta Renata. Como sempre, uma profissional eficiente. Parabéns pela matéria!



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