São Paulo, 17 de October de 2017
Home / Colunistas / Segurança do Paciente e o Papel do Enfermeiro

Qualidade | Vanice Costa

Enfermeira graduada pela Universidade de São Paulo – USP. Pós-graduada em Controle de Infecção Hospitalar pela Faculdade Albert Einstein. MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela FGV. Avaliadora de Sistemas de Saúde, através da metodologia ONA e Accreditation Canada. Atualmente é Diretora de Certificação do IBES - Instituto Brasileiro para Excelência em Saúde.E-mail: vanice@ibes.med.br - Email: vanice@ibes.med.br

+ postagens

Segurança do Paciente e o Papel do Enfermeiro

O enfermeiro possui sua formação voltada para a assistência integral ao paciente, objetivando o atendimento de suas necessidades para o melhor cuidado possível. Porém, sabemos que os cuidados de saúde são bastante complexos, e muitas vezes variáveis, diferindo de quase todos os outros setores de segurança crítica (aviação, indústria nuclear, automobilismo, etc).

Nas décadas passadas, muitas complicações de saúde foram reconhecidas, pelo menos por alguns, mas em grande parte, vistas como conseqüências inevitáveis ​​da intervenção assistencial.

Com o tempo, certos tipos de incidentes passaram a ser vistos como inaceitáveis e potencialmente evitáveis, como as infecções associadas aos cuidados de saúde. Há menos de 4 décadas atrás, elas ainda eram consideradas como lamentáveis, mas inevitáveis. Com o aumento da compreensão dos processos subjacentes, mecanismos de transmissão e métodos de prevenção, juntamente com grande pressão da opinião pública e de regulamentação, tais infecções são agora vistas com o enfoque da segurança do paciente. A melhoria dos padrões de saúde podem alterar as nossas concepções de evitabilidade de danos na assistência.

Em 1999 a famosa publicação do livro To Err is Human: Building a Safer Health Care System (EUA), demonstrou que erros acontecem e são frequentes durante a prestação de assistência, causando milhares de mortes e sequelas irreversíveis.

Hoje em dia, eventos tais como cirurgia do lado errado, troca de hemocomponentes no processo transfusional, erros anestésicos, entre outros, tomaram lugar na mídia e nas discussões das equipes assistenciais, e se tornaram falhas intoleráveis. A consequência é que cada vez mais todos estão se movendo para a importância da Segurança do Paciente como um tema a ser discutido interna ou externamente ao ambiente assistencial.

Nos últimos 10 anos, à medida que mais tipos de danos vêm sendo considerados como evitáveis, poderíamos agora incluir úlceras por pressão, quedas, tromboembolismo venoso e infecções de cateteres urinários que, se não totalmente evitáveis, podem pelo menos ser substancialmente reduzidos. Eventos tais como desnutrição, desidratação, delírio, eventos adversos relacionadas a medicamentos, polifarmácia e danos por tratamento excessivo agora recebem maior atenção por serem vistos sob o guarda-chuva de segurança.

Em 2004, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou a “Aliança Mundial para a Segurança do Paciente”, projeto cujo objetivo é prevenir danos aos pacientes. Um dos elementos centrais da aliança mundial da OMS é a ação conhecida como Desafio Global, o qual lança um tema prioritário a cada dois anos para a adoção pelos membros da OMS.

Ainda que tenham havido esforços para a uniformização dos conceitos de segurança pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e metodologias de acreditação, os limites da definição de dano ainda parecem não tão claros. E isso vem causando ruídos e falta de alinhamento dos profissionais às políticas de Segurança do Paciente. Vale lembrar que um evento adverso é definido como uma lesão acidental provocada pela administração de cuidados de saúde, em vez de doença do paciente, e que resulta numa permanência hospitalar, incapacidade ou morte temporária ou permanente.

O Código de Ética dos Enfermeiros considera as necessidades da população e os direitos ao cuidado de enfermagem, focado na pessoa, família e coletividade, assumindo que os enfermeiros possam defender o cuidado à saúde, livre de riscos preveníveis e danos, e acessível a toda a população.

A melhoria da segurança do cuidado em saúde reduz as doenças e os danos. Muitas vezes também diminui o custo do tratamento e/ou o tempo de hospitalização, melhora ou mantém o status funcional do paciente, e promove a qualidade de vida.

No contexto hospitalar, muitos fatores podem provocar danos aos pacientes. O ambiente também envolve muitos fatores relacionados ao paciente e família: fatores físicos, psicológicos, culturais, entre outros, que influenciam ou afetam a segurança.

Ademais, problemas tais como dimensionamento inadequado, frágil cultura organizacional, falta de materiais e insumos, equipes pouco capacitadas ou com baixa interação multidisciplinar, problemas de comunicação e as constantes falhas dos sistemas impactam nas ações dos enfermeiros. Isso pode impactar na relação terapêutica com o paciente e família, causando prejuízos adicionais na assistência.

Apesar das controvérsias conceituais, não devemos abandonar as tentativas de melhorar a segurança, mas temos de reconhecer suas limitações. E o enfermeiro tem um papel crucial. Estratégias tais como capacitação da equipe para o reconhecimento e notificação dos eventos adversos, disseminação dos conceitos de Gerenciamento de Riscos e Segurança do Paciente e promoção de uma cultura organizacional que não seja punitiva, mas preventiva, são passos cruciais para os próximos anos, no sentido de priorizar o foco no paciente e na sua segurança.

Pedimos a gentileza de citar a referência:
Costa V. Segurança do Paciente e o papel do Enfermeiro [internet] 2015 [citado 2015 Agosto 2015]. Disponível em http://www.portaldaenfermagem.com.br

Referências Consultadas:
Burke JP. . Infection control—a problem for patient safety. N Engl J Med 2003; 348:651–6. Chopra V, et al. Risk of venous thromboembolism associated with peripherally inserted central catheters: a systematic review and meta-analysis. Lancet2013; 382:311–25.
Gandhi TK, et al. Adverse drug events in ambulatory care. N Engl J Med 2003;348:1556–64 Vincent, Charles, Amalberti, R. Safety in healthcare is a moving target. BMJ Qual Saf doi:10.1136/bmjqs-2015-004403
Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, 2007. Disponível em: http://www.coren-sc. org.br/Empresa2/Cepreform.html

Comentários

O portal da Enfermagem não faz a moderação dos comentários sobre suas matérias, esse Espaço tem a finalidade de permitir a liberdade de expressão dos seus leitores, portanto, os comentários não refletem a opinião dos gestores. Apesar disso, reservamo-nos o direito de excluir palavras de baixo calão, eventualmente postadas.

Nenhum comentário enviado, seja o primeiro. Participe!