São Paulo, 15 de December de 2017
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Infecção Hospitalar | Carmen Salles

Enfermeira, mestre em ciências da saúde, com 18 anos na área de controle de infecção hospitalar, atuou na assessoria da Câmara Técnica do Coren-SP auxiliando em pareceres e em projetos como no de Segurança do Paciente e no Prêmio Gestão com Qualidade - dimensão hospitalar. Realiza consultoria na elaboração e implantação de plano de gerenciamento de resíduos de serviço de saúde. Escreveu capítulos de livros na área de segurança do paciente e gestão hospitalar. - Email: carmenligia@uol.com.br

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Cuidado limpo e seguro

Todo indivíduo tem direito a receber uma assistência à saúde de qualidade oferecida por uma instituição de saúde e que seja efetiva e segura.

O tema “Higienização das Mãos” tem sido tratado como prioridade, a exemplo da “Aliança Mundial para Segurança do Paciente”, iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) já firmada com vários países (http://www.who.int/patientsafety/en). A criação dessa aliança realça o fato de que a segurança do paciente, agora é reconhecida como uma questão global. Esta iniciativa se apoia em intervenções e ações que tem reduzido os problemas relacionados com a segurança dos pacientes nos países que aderiram a esta aliança.

As mãos são consideradas ferramentas principais dos profissionais que atuam nos serviços de saúde, pois são os executores das atividades realizadas. Assim, a segurança do paciente nesses serviços depende da higienização cuidadosa e frequente das mãos destes profissionais.

A Portaria do Ministério da Saúde MS n°. 2616, de 12 de maio de 1998 estabelece as ações mínimas a serem desenvolvidas sistematicamente, com vistas à redução da incidência e da gravidade das infecções relacionadas aos serviços de saúde. Destaca também a necessidade da higienização das mãos em serviços de saúde. A Resolução da Diretoria Colegiada RDC n°. 50, de 21 de fevereiro de 2002, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde (Anvisa/MS), dispõe sobre Normas e Projetos Físicos de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde, definindo, dentre outras, a necessidade de lavatórios/pias para a higienização das mãos. Esses instrumentos normativos reforçam o papel da higienização das mãos como ação mais importante na prevenção e controle das infecções relacionadas à assistência à saúde.

Os Centers for Diseases Control and Prevention – CDC, estimam que de 5% a 10% dos pacientes hospitalizados desenvolvem uma infecção relacionada à assistência à saúde (IRAS), o que corresponde a aproximadamente 2 milhões de IRAS associadas com quase 100.000 mortes a cada ano em hospitais dos EUA. Em países em desenvolvimento o risco de IRAS é 2 a 20 vezes mais alto e a taxa pode chegar a 25%.

Destas infecções, 50% são associadas à higienização das mãos. Um procedimento tão simples, porém, o mais importante na profilaxia das infecções hospitalares, que associada a outras estratégias, representa medidas imprescindíveis para o controle de infecção em ambiente hospitalar.

Até 40% das mãos dos enfermeiros apresentaram coliformes antes desses profissionais realizarem a higienização, o que foi relatado em um estudo. Outro estudo mostrou que 17% da equipe da UTI tinham em suas mãos a Klebsiella spp..  As mãos de enfermeiros podem ter coliformes após contato com materiais de higienização e vestuário dos pacientes entre outros. A contaminação das mãos, apesar do uso de luvas, foi relatada em 4,5% e 1% dos profissionais após cuidar de pacientes colonizados ou infectados por Acinetobacter baumannii multirresistente e Pseudomonas aeruginosa multirresistente, respectivamente.  Acinetobacter calcoaceticus é o bacilo gram negativo mais frequentemente encontrado na pele normal, colonizando 25% dos indivíduos.

O mecanismo de transmissão cruzada de microrganismos está resumido nas diretrizes 2009 HH “Five moments” da Organização Mundial da Saúde (OMS) disponível em: http://whqlibdoc.who.int/publications/2009/9789241597906_eng.pdf :

  1. Presença de microrganismos na pele do paciente e ou no ambiente do paciente
  2. Transferência desses organismos para as mãos dos profissionais de saúde
  3. Sobrevivência microbiana nas mãos dos profissionais de saúde
  4. Limpeza incorreta das mãos pelos profissionais
  5. Transmissão cruzada para outros pacientes

Mesmo diante de tantas informações que corroboram a importância da higienização das mãos, ainda permanece a dúvida:

Porque é tão insatisfatória a adesão da equipe multidisciplinar de saúde no que se se refere à Higienização das Mãos (HM)?
Estudos buscaram justificativas dos próprios Profissionais da área da Saúde (PAS) para a não adesão a HM, dentre elas estão: sobrecarga de trabalho, falta de tempo e de recursos materiais, recursos materiais inadequados, falta de motivação, irresponsabilidade, falta de conscientização da equipe multiprofissional, pouca importância à contaminação cruzada, ausência de pias próximas ao paciente e reações cutâneas nas mãos. http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440217&pid=S0717-9553201000010000600008&lng=es

Um estudo de intervenção que utilizou diferentes estratégias de incentivo à HM e que foram construídas com a participação dos membros da equipe de saúde da instituição mostrou que não houve impacto significativo nos índices de adesão e que com o passar do tempo a tendência era de queda destes índices. http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440222&pid=S0717-9553201000010000600013&lng=es

A enfermagem atua de forma direta e indireta na assistência e por representar, na maioria das instituições de saúde, o maior percentual de trabalhadores, faz-se imprescindível sua atuação de forma a prevenir e controlar infecções e neste contexto a HM tem um papel essencial.

Alguns autores ressaltam a importância de agir e trabalhar o tema HM precocemente nos cursos de graduação, com a finalidade de promover a construção do hábito correto de HM.

A formação dos profissionais com uma percepção de prevenção, talvez seja um dos grandes desafios que o ensino na área da saúde enfrenta. No caso da HM interessa não apenas a adesão, mas a sua execução de forma correta de onde se infere a necessidade de que a técnica seja enfatizada nos cursos de formação da área da saúde. Acreditamos que os resultados apresentados neste estudo servirão para reconhecimento das reais necessidades no que diz respeito ao ensino da técnica de HM e fatores envolvidos, sob uma visão de futuros profissionais de saúde.

Como vimos inúmeros artigos publicados sobre o tema são enfáticos em afirmar que HM é a medida mais simples e eficaz no controle das infecções relacionadas à assistência a saúde. Mesmo assim, nós controladores de infecções nos deparamos com desafios constantes e diários realizando campanhas variadas sejam de forma lúdica com teatros, musicas, tintura nas mãos, cartazes, ou ainda a elaboração de instruções técnicas, checklist enfim, criando e recriando maneiras de atingir nosso objetivo, um cuidado limpo e seguro!

Sendo assim, fica lançado aqui nesta oportunidade mais um desafio: convencer seu companheiro de equipe a realizar a lavagem das mãos com água e sabão ou utilizar álcool gel, sempre, antes do contato com o paciente, antes da realização de procedimento asséptico, após risco de exposição a fluidos corporais, após contato com paciente, ou com os equipamentos próximos ao paciente.

Aceita o desafio?

Comentários

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